quinta-feira, 19 de junho de 2014

Fotografias - Protesto



A bazuca contracultural de Hunter Thompson

“Uma noite, no inverno de 1965, eu levei a minha moto – e um passageiro – pro lado mais alto de uma estrada escorregadia por causa da chuva ao norte de Oakland. Eu entrei numa curva obviamente perigosa a uns 110 Km/h, esticando a minha segunda marcha. A pista molhada impediu que eu inclinasse o suficiente para compensar a tremenda inércia e, em algum lugar no meio da curva, percebi que a roda traseira não estava mais seguindo a dianteira. A moto estava indo para o lado na direção de uma rampa de trilho de uma ferrovia e não havia nada que pudesse fazer a não ser esperar. Por um instante, a sensação era de muita paz… E depois foi como ser atirado para fora da estrada por uma bazuca, mas sem nenhum barulho.”
O trecho acima, do livro Hell’s Angels, em que o jornalista e escritor Hunter S. Thompson narra como se esbagaçou em sua moto, pode ser considerado como uma síntese de duas modalidades de jornalismo surgidas quase que no mesmo período e profundamente inspiradas pelo movimento de contracultura das décadas de 50 e 60: o Novo Jornalismo e o Jornalismo Gonzo . Mas Hell’s Angels, por ser uma espécie de obra de transição de Thompson, ajuda a demonstrar mais do que isso: explica as diferenças entre o Novo Jornalismo e o Gonzo e explica porque foi ele, Thompson, – e não Capote, Talese ou Mailer, por exemplo – quem levou a contracultura às últimas conseqüências em sua obra jornalístico-literária.
O livro foi publicado originalmente em 1967 e trata dos grupos ou gangues de Hell’s Angels, que na década de 60 foram alvo de grande estardalhaço por parte da imprensa americana e povoaram o imaginário da população do país como perigosos malfeitores. Thompson desvenda os exageros e mitos criados pela imprensa da época a respeito deles e explica como surgiram e o que eram essas gangues de motoqueiros.
Mas o grande lance é que o livro não é um amontoado de relatos de segunda mão – como tão freqüentemente costuma continuar a ser o jornalismo – nem uma tese de antropologia, apesar de ser tão profundo quanto uma e com certeza muito mais vibrante. Hell’s Angels é um livro feito a partir de uma técnica chamada “imersão na realidade” ou “captação participativa”.Isso quer dizer simplesmente que, para escrever sobre os caras, Thompson praticamente virou um deles: passou a conviver com eles diariamente durante cerca de um ano, a rodar em cima de sua própria motocicleta e a ver pessoalmente como eles viviam e o que faziam. Até aí se trata da mesma técnica fundamental do Novo Jornalismo, que incluía, ainda, outros procedimentos constitutivos.
Mas Thompson ainda extrapolaria ainda mais na “imersão” e é aí que se encontra a pedra de toque que iria distingui-lo dos novos jornalistas. Ele terminaria por se tornar o protagonista de suas histórias, invertendo completamente a lógica jornalística. Isso fez com que inclusive outras características – presentes em Hell’s Angels – se exacerbassem depois, em livros como Medo e Delírio em Las Vegas (1972). Dentre elas está 1.) a utilização do narrador em primeira pessoa, 2.) o consumo de drogas e a descrição dos acontecimentos a partir deste ponto de vista, 3.) o uso do sarcasmo e/ou vulgaridade como forma de humor, 4.) a dificuldade de discernir ficção de realidade e 5.) a tendência de se distanciar do assunto principal ou do assunto por onde o texto começou, ou seja, o mote jornalístico inicial.

Thompson teve colhões suficientes para, primeiro, renegar o jornalismo convencional – e simultaneamente afrontar os literatos. Mas isso já havia sido feito pelos novos jornalistas. Ele, então, resolveu ir além do que se faziam no Novo Jornalismo e foi fundo na subjetividade, a ponto de mandar a regra número um do jornalismo, a referencialidade, pras cucuias. Sua obra foi parar num limbo entre jornalismo e literatura e literatura confessional, confrontando, ao mesmo tempo, as regras de todos eles e demonstrando quão frágeis podem ser vários de seus parâmetros. Assim como queriam vários dos movimentos contraculturais, ele consegue questionar discursos sociais (nos quais se incluem discursos profissionais também) cristalizados e desfazer determinados limites ou linhas divisórias pré-estabelecidas pela tradição. É claro que tudo isso teve seu preço, que pode ter a ver com a sua morte por suicídio, com um tiro na cabeça, em fevereiro de 2005.

Coluna por Yuri Borges, jornalista

Caveiras

Por Jean Moura