O trecho acima,
do livro Hell’s Angels, em que o jornalista e escritor Hunter S.
Thompson narra como se esbagaçou em sua moto, pode ser considerado
como uma síntese de duas modalidades de jornalismo surgidas quase
que no mesmo período e profundamente inspiradas pelo movimento de
contracultura das décadas de 50 e 60: o Novo Jornalismo e o
Jornalismo Gonzo . Mas Hell’s Angels, por ser uma espécie de obra
de transição de Thompson, ajuda a demonstrar mais do que isso:
explica as diferenças entre o Novo Jornalismo e o Gonzo e explica
porque foi ele, Thompson, – e não Capote, Talese ou Mailer, por
exemplo – quem levou a contracultura às últimas conseqüências
em sua obra jornalístico-literária.
O livro foi
publicado originalmente em 1967 e trata dos grupos ou gangues de
Hell’s Angels, que na década de 60 foram alvo de grande
estardalhaço por parte da imprensa americana e povoaram o imaginário
da população do país como perigosos malfeitores. Thompson desvenda
os exageros e mitos criados pela imprensa da época a respeito deles
e explica como surgiram e o que eram essas gangues de motoqueiros.
Mas o grande
lance é que o livro não é um amontoado de relatos de segunda mão
– como tão freqüentemente costuma continuar a ser o jornalismo –
nem uma tese de antropologia, apesar de ser tão profundo quanto uma
e com certeza muito mais vibrante. Hell’s Angels é um livro feito
a partir de uma técnica chamada “imersão na realidade” ou
“captação participativa”.Isso quer dizer simplesmente que, para
escrever sobre os caras, Thompson praticamente virou um deles: passou
a conviver com eles diariamente durante cerca de um ano, a rodar em
cima de sua própria motocicleta e a ver pessoalmente como eles
viviam e o que faziam. Até aí se trata da mesma técnica
fundamental do Novo Jornalismo, que incluía, ainda, outros
procedimentos constitutivos.
Mas Thompson
ainda extrapolaria ainda mais na “imersão” e é aí que se
encontra a pedra de toque que iria distingui-lo dos novos
jornalistas. Ele terminaria por se tornar o protagonista de suas
histórias, invertendo completamente a lógica jornalística. Isso
fez com que inclusive outras características – presentes em Hell’s
Angels – se exacerbassem depois, em livros como Medo e Delírio em
Las Vegas (1972). Dentre elas está 1.) a utilização do narrador em
primeira pessoa, 2.) o consumo de drogas e a descrição dos
acontecimentos a partir deste ponto de vista, 3.) o uso do sarcasmo
e/ou vulgaridade como forma de humor, 4.) a dificuldade de discernir
ficção de realidade e 5.) a tendência de se distanciar do assunto
principal ou do assunto por onde o texto começou, ou seja, o mote
jornalístico inicial.
Thompson teve
colhões suficientes para, primeiro, renegar o jornalismo
convencional – e simultaneamente afrontar os literatos. Mas isso já
havia sido feito pelos novos jornalistas. Ele, então, resolveu ir
além do que se faziam no Novo Jornalismo e foi fundo na
subjetividade, a ponto de mandar a regra número um do jornalismo, a
referencialidade, pras cucuias. Sua obra foi parar num limbo entre
jornalismo e literatura e literatura confessional, confrontando, ao
mesmo tempo, as regras de todos eles e demonstrando quão frágeis
podem ser vários de seus parâmetros. Assim como queriam vários dos
movimentos contraculturais, ele consegue questionar discursos sociais
(nos quais se incluem discursos profissionais também) cristalizados
e desfazer determinados limites ou linhas divisórias
pré-estabelecidas pela tradição. É claro que tudo isso teve seu
preço, que pode ter a ver com a sua morte por suicídio, com um tiro
na cabeça, em fevereiro de 2005.
Coluna por Yuri Borges, jornalista
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